A autoridade estatística antecipa uma desaceleração mais forte do PIB, retirando cinco décimas ao crescimento económico esperado face a dezembro, e uma subida maior dos preços. Guerra no Irão é a grande responsável, mas tempestades também contribuíram. Cenário não é pior por causa do mercado de trabalho, do PRR e da “política orçamental expansionista”. Este cenário assume que a guerra não vai ser prolongada.

O Banco de Portugal projeta um crescimento de 1,8% este ano, cinco décimas a menos do que esperava em dezembro, antes da guerra do Irão. Para o próximo ano, acredita que o país vai crescer 1,6% e para 2028 antecipa uma subida de 1,8%.

“O Banco de Portugal revê em baixa o crescimento deste ano em 0,5 pontos percentuais, refletindo a deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente, que implicou o aumento do preço dos bens energéticos e a expectativa de agravamento das condições de financiamento”, explica a autoridade estatística no comunicado que acompanha o boletim económico de março.

“Os eventos climáticos extremos do início do ano e a evolução mais fraca da atividade no final de 2025 face ao projetado em dezembro também contribuíram para a revisão em baixa”, acrescenta.

Um cenário que só não é pior devido à “solidez do mercado de trabalho, a execução do PRR e uma política orçamental expansionista”. No próximo ano e em 2028, “a atividade será condicionada pelo abrandamento da oferta de trabalho e pela diminuição dos fundos europeus”, avisa o supervisor.

Durante este período, “a procura interna será o principal motor do crescimento” e, apesar de tudo, o Banco de Portugal espera que a economia nacional continue a “crescer acima da média da área do euro, ainda que o diferencial se estreite ao longo do horizonte”.

Em relação ao mercado de trabalho, “continuará sólido, com uma taxa de desemprego estabilizada em níveis historicamente baixos”, ainda que a criação de emprego deva abrandar, “fruto da diminuição dos fluxos migratórios e do aumento mais contido da taxa de atividade”.

A inflação, por outro lado, “deverá aumentar para 2,8% em 2026, refletindo o aumento das pressões de origem externa”. Em dezembro, o supervisor esperava uma subida de 2,1%. “O conflito no Médio Oriente explica, em larga medida, as revisões em alta da inflação em 2026 e 2027. A dissipação do efeito do choque energético nos preços e a manutenção das expetativas de inflação de longo prazo ancoradas deverão contribuir para a redução da inflação para 2% em 2028”, sublinha o Banco de Portugal.

A incerteza, nota ainda, “é elevada” e os riscos “intensificaram-se desde dezembro”. O Banco de Portugal ressalva, no entanto, que este cenário pressupõe “uma duração relativamente limitada do conflito no Médio Oriente e efeitos contidos na confiança das famílias e empresas e nas cadeias de abastecimento globais”, e sinaliza que “a intensificação ou prolongamento das hostilidades teria um impacto mais significativo nos preços e na atividade”.

“Internamente, o principal risco está relacionado com a capacidade de execução do PRR. Em sentido contrário, a economia portuguesa poderá ser estimulada pelo recém-anunciado PTRR (Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência) e pelo reforço do investimento europeu em defesa e infraestruturas”, acredita a entidade liderada por Álvaro Santos Pereira.

“Neste contexto de tensão geopolítica e constrangimentos demográficos, é essencial Portugal manter a trajetória de redução do endividamento público e privado, continuar a reforçar as qualificações da população e criar as condições para aumentar o investimento e a adoção de novas tecnologias”, recomenda o supervisor.

Fonte: Sapo.Pt