O fechamento oficial da safra 2025/26 no Centro-Sul, divulgado pela UNICA, confirmou um cenário que o mercado já vinha precificando ao longo dos últimos meses: menor disponibilidade relativa de etanol frente ao ciclo anterior, sobretudo no hidratado, combinado com uma mudança estrutural relevante na estratégia produtiva do setor para a safra 2026/27.
A margem acumulada encerrou o ciclo em 611,15 milhões de toneladas de cana, retração de 1,73% em relação às 621,93 milhões de toneladas da safra 2024/25. Apesar da redução relativamente moderada no volume processado, o impacto sobre a produção de etanol foi mais perceptível em razão da piora na produtividade agrícola e da redução do ATR médio da matéria-prima. O rendimento agrícola caiu para 74,4 toneladas por hectare, recuo de 4,1%, enquanto o ATR médio fechou em 137,79 kg por tonelada de cana, queda de 2,34% frente ao ciclo anterior.
Na prática, o efeito mais importante apareceu justamente na produção de etanol hidratado, que totalizou 20,83 bilhões de litros no Centro-Sul, retração de 7,82% em relação à safra anterior. O anidro, por outro lado, apresentou crescimento de 4,22%, alcançando 12,89 bilhões de litros, impulsionado principalmente pelo aumento da mistura obrigatória para E30 implementado em agosto de 2025. Como consequência, a produção total de etanol fechou em 33,72 bilhões de litros, queda de 3,56% sobre o recorde histórico do ciclo anterior.
Esse comportamento explica boa parte da sustentação observada nos preços ao longo da entressafra. O mercado trabalhou praticamente durante todo o primeiro trimestre de 2026 sob uma percepção de estoques mais apertados, especialmente para o hidratado, cuja disponibilidade foi significativamente menor na comparação anual. Os números acumulados da safra deixam isso evidente: enquanto o anidro cresceu em produção e vendas, o hidratado apresentou retração relevante tanto no volume fabricado quanto comercializado.
As vendas internas reforçam essa leitura. No acumulado da safra, o etanol hidratado vendido no mercado doméstico somou 20,34 bilhões de litros, retração frente aos 21,74 bilhões registrados no ciclo anterior. Já o anidro alcançou 13,04 bilhões de litros comercializados internamente, avanço de 7,08%, refletindo diretamente o impacto do E30 sobre a demanda compulsória.
Outro ponto estrutural relevante foi a expansão contínua do etanol de milho. A produção acumulada atingiu 9,19 bilhões de litros, crescimento de 12,26%, representando 27,28% de todo o etanol produzido no Centro-Sul. Esse avanço ajuda a explicar a mudança competitiva observada na atual dinâmica de contratação do anidro para a safra 2026/27, com aumento relevante da oferta disponível e maior pressão sobre prêmios e diferenciais logísticos.
Já os primeiros números da safra 2026/27 confirmam uma mudança bastante clara no direcionamento do mix produtivo. Na primeira quinzena de abril, apenas 32,93% da cana foi destinada à produção de açúcar, contra 44,71% no mesmo período do ciclo anterior. Em contrapartida, 67,07% da matéria-prima foi direcionada ao etanol. Como resultado, a produção total de etanol na quinzena avançou 33,32%, atingindo 1,23 bilhão de litros, com destaque para o crescimento de 94,14% no anidro e de 18,54% no hidratado.
Essa mudança de mix dialoga diretamente com o cenário atual de mercado. O setor claramente responde à pior remuneração do açúcar no mercado internacional e às expectativas positivas para os biocombustíveis, sobretudo diante da iminente aprovação do E32, que poderá adicionar aproximadamente 1 bilhão de litros anuais de demanda de anidro ao mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, as estimativas privadas de moagem acima de 630 milhões de toneladas para o Centro-Sul reforçam a percepção de uma safra potencialmente bastante ofertada.
Apesar disso, o mercado ainda acompanha com atenção a efetiva implementação do E32. Embora o aumento da mistura obrigatória já tenha sido anunciado pelo governo federal, a medida ainda depende da ratificação formal do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A expectativa inicial era de aprovação nesta primeira semana de maio, porém a reunião foi postergada para o dia 11, mantendo momentaneamente um componente adicional de cautela entre os agentes do setor. A postergação não altera a percepção estrutural de aumento de demanda futura, mas adia parcialmente a consolidação desse suporte psicológico ao mercado, justamente em um momento em que o avanço da moagem amplia rapidamente a disponibilidade física de produto.
No mercado spot, esse movimento já ficou bastante evidente ao longo da última semana. Tanto o etanol hidratado quanto o anidro registraram novas quedas nas cotações, refletindo o aumento gradual da oferta, o avanço operacional da safra e a postura ainda defensiva das distribuidoras nas compras de reposição. O índice diário Esalq do hidratado em Paulínia acumulou retração superior a 1% no período, reforçando o ambiente de acomodação observado desde a segunda quinzena de abril.
Na prática, o etanol hidratado já passou a ser negociado abaixo de R$ 2,80/litro EXW em produtores da região de Ribeirão Preto, enquanto o anidro apresentou realizações próximas de R$ 2,80/litro EXW, ainda que compradores tenham intensificado pressão para fechamento em níveis mais próximos de R$ 2,75/litro. O movimento mostra que o mercado começa a incorporar não apenas o aumento da oferta imediata, mas também a expectativa de continuidade de crescimento produtivo ao longo dos próximos meses.
Ao mesmo tempo, a velocidade dessa queda ainda encontra alguns limites estruturais. Mesmo com a pressão sazonal típica do início de safra, o mercado segue monitorando fatores que podem atuar como suporte ao longo do ciclo, como a expansão da mistura obrigatória, o crescimento do consumo do ciclo Otto e a competitividade relativa do etanol frente à gasolina. Além disso, o avanço do etanol de milho continua alterando profundamente a dinâmica de abastecimento nacional, principalmente no anidro, ampliando liquidez e aumentando a concorrência entre ofertantes.
Dessa forma, o mercado entra efetivamente em uma nova etapa da safra 2026/27. Se durante grande parte de 2025/26 o foco esteve na administração de estoques curtos e na sustentação de preços durante a entressafra, agora o centro das atenções passa a ser a capacidade de absorção da nova oferta que chega ao mercado em ritmo acelerado. O viés de curto prazo segue baixista para o hidratado, especialmente enquanto compradores mantiverem postura conservadora nas aquisições. Já para o anidro, apesar da pressão competitiva mais intensa, os fundamentos estruturais ligados ao E32 e ao crescimento da demanda compulsória continuam oferecendo um suporte importante para o equilíbrio do mercado ao longo da safra.

