Às 8h05 da manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio saiu do quarto de pijama (bordô) e desceu até seu gabinete, no 2º andar do Palácio do Catete. Logo depois, e como fazia todas as manhãs, o barbeiro Barbosa entrou nesse quarto (3º andar) para fazer a barba do presidente, mas não o encontrou. Às 8:26 ele voltou para os seus aposentos com a Carta-Testamento no bolso. Sentou-se na cama, apontou o Colt calibre 32, com cabo de madrepérola contra o mamilo esquerdo, e puxou o gatilho. Lutero, seu filho (médico), foi o primeiro a entrar, seguido de Dona Darcy, do médico Flávio Miguez de Mello e da Alzirinha, a filha querida, conselheira e companheira de todas as horas. Getúlio estava com meio corpo para fora da cama, agonizante. Morreu alguns minutos depois. Faz 72 anos, Getúlio tinha 72 anos, e esse tiro foi um cavalo de pau na rota dos acontecimentos que vinham turbulentos desde o início daquele ano. 

Em 5 de agosto, o jornalista Carlos Lacerda, feroz acusador dos desmandos do Catete, foi alvejado por balas de um revólver calibre 45 quando saltou do seu carro, na portaria do prédio aonde residia, na Rua Tonelero nº 180, em Copacabana. Mas quem tombou morto foi o Major da Aeronáutica Rubens Vaz, encarregado de lhe dar proteção. Um dos tiros acertou o pé do Lacerda, que mesmo com o pé engessado saiu logo depois dos primeiros curativos, apoiado por outros oficiais e familiares, rumo à Rádio Mayrink Veiga, aonde pronunciou um candente e incendiário discurso: “… esta noite uma mulher vai se deitar e a seu lado não está mais o seu marido. Por quê? A vida cessou em seu ciclo natural? Não, não. Porque ele foi assassinado por sicários pagos pelo Palácio do Catete…” 

Getúlio governou o Brasil por 2o anos. De temperamento frio e controlado, não gostava de intimidades. Chamava a todos de doutor e senhor; nunca falou com ninguém ao telefone. “Fazia política de esquerda, com a mão direita”, como o definiu o escritor judeu, exilado do nazismo, Stefan Zweig. Mas, na outra mão desse formalismo, foi o primeiro presidente a vestir terno branco, dar gargalhada em público e ir ao teatro-revista assistir à peças que o ironizavam. Era sóbrio, pessoalmente, embora o seu retrato fosse exposto pelo DIP em todas as paredes do Brasil oficial (repartições, quarteis etc). E ele mesmo tinha a intuição do marketing político: andava a pé pelas ruas do Rio e de Petrópolis, afagava criancinhas, tomava chá na Confeitaria Colombo, e usou o rádio como nenhum outro presidente, antes dele. Foi, também, o primeiro “chefe da nação” a visitar os povos originários, no Brasil Central, como se dizia. Parênteses: o que explica que meio para puxar o saco do governo, meio porque já nascia um movimento de curiosidade pela nossa etnia, arquitetos e engenheiros dos anos 40 batizaram muitos prédios da Zona Sul carioca com nomes indígenas — Iracema, Itahy, Piragibe, Marajoara…  

Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”… (trecho final da Carta-Testamento).. 

Autor Reinaldo Paes Barreto