As relações entre Portugal e o Brasil são frequentemente descritas como únicas. Invocam-se a história, a língua, a afinidade cultural. Mas, talvez por isso mesmo, raramente se questiona se essa narrativa ainda corresponde à realidade.

Hoje, a ligação entre os dois países está longe de ser estática. É feita de investimento cruzado, mobilidade qualificada, redes académicas, empresas em expansão e circulação de talento. Portugal tornou-se porta de entrada na Europa para muitos brasileiros; o Brasil continua a ser, para Portugal, um espaço de escala e projeção. Esta não é uma relação nostálgica — é uma relação contemporânea e estratégica.

E, no entanto, persistimos em tratá-la como se não tivesse evoluído.

Vale a pena colocar uma questão incómoda: quem são, afinal, as “comunidades portuguesas” no Brasil de hoje? Correspondem ainda à imagem da emigração de necessidade ou refletem uma realidade distinta, composta por quadros qualificados, empresários, académicos e instituições globais?

Se a resposta parece evidente, importa reconhecer que continuamos, em parte, prisioneiros de uma visão desatualizada. Um Portugal saudosista, confortável na evocação da diáspora histórica, mas menos atento às dinâmicas atuais.

Essa leitura tem consequências. A forma como o Estado organiza esta relação permanece fragmentada, sem eixo estratégico claro. Multiplicam-se iniciativas, mas falta coerência. Reconhece-se a importância do Brasil, mas essa importância não se traduz numa política pública consistente.

Num mundo onde os países competem por influência, investimento e talento, não basta proximidade histórica. É preciso transformá-la em vantagem estratégica.

É legítimo questionar se o modelo institucional atual responde à realidade. Talvez seja tempo de assumir que a relação com o Brasil exige outra ambição — menos centrada na memória e mais orientada para o futuro.

Fonte: Público.pt