Durante anos – muitos! – eu esperei a terceira quinta-feira de novembro com
ansiedade no paladar para ser dos primeiros a provar o Beaujolais Nouveau (ou
primeur). Me lembro, inclusive, de quando morei em Paris, quase pernoitar em
alguns dos incontáveis bistrôs que o lançavam, antes da meia-noite dessas
quintas-feiras (às vezes tiritando de frio!), para no minuto um desse “Jeudi”,
degustar esse icônico vinho rebelde.

Um gole de história. Ele é produzido com 100% das uvas Gammay e, ao contrário
do ciclo milenar da maioria quase absoluta dos vinhos, engarrafado no mesmo
ano da sua colheita, desde que em 1951 foi lançado como um vinho jovem,
“diferente”, pra ser bebido a qualquer hora. E isso porque a safra tinha sido muito
ruim e se ele fosse descansar em barricas ou tonéis por um ano, e competir com
outros vinhos mesmo da mesma região, seria um possível fracasso de vendas.
Então, alguns produtores audaciosos decidiram apostar na espetacular jogada de
marketing: lançá-lo no mercado até o fim do mesmo ano, com alarde. E organizar
uma distribuido com logística “militar”; primeiro em Paris e depois na França — no
mesmo dia. Foi uma novidade badalada. Aí, no ano seguinte, estenderam a
distribuição pela Europa e, nos anos subsequentes, para os quatro cantos do
mundo. E ninguém, além dos enólogos e produtores, podia prová-lo antes dessa
data-referência no mundo do vinho. Contam, inclusive, que em um certo
novembro o então presidente Mitterrand recebeu o primeiro-ministro alemão
numa terça-feira anterior à quinta-feira do lançamento e resolveu surprêende-lo,
convidando-o para uma prova antecipada do Beaujolais.
Não conseguiu: quebrou a cara! Mesmo sendo presidente da França! Passou
pelo vexame de ter que enviar uma caixa, dois dias depois, para Bonn (a antiga
capital da Alemanha), com um cartão de “désolé!”,

Características/comentários
É um vinho “ que não morde”, como escreveu um crítico (bem) francês. Apresenta
uma cor vioeta, tipo olhar da Elizabeth Taylor, e gosto de frutas do campo, com
predomínio de amoras, framboesas, cassis e morango. E em alguns anos sente-
se “lá longe”, no final da boca, um retrogosto de banana, por conta da terebentina.

Ou seja, um vinho para ser apreciado quase frio (10 a 12graus), sem muito papo.
Numa mesa de restaurante (de preferência ao ar livre), ou na beira da piscina, ou
num piquenique chique… Ou no mais acharmoso almoço desde que o anfitrião
saiba apreciar a vida sem preconceitos.
Final: sei que alguns distribuidores de vinhos, delis, etc, irão receber o Beajolais
2025 por esses dias. Mas, primeiro, perdeu aquela magia da data “imexível” e,
segundo, o preço foi para os cornos da lua!
Autor: Reinaldo Paes Barreto

